Sunday, May 20, 2007

Escolarização Obrigatória

The following is a slightly modified translation of this article about the history of compulsory education.

O que se segue é uma tradução ligeiramente alterada de um texto por Thom Hartman, que pode ler aqui. No original o autor refere-se às crianças com hiperatividade e déficit de atenção.


Geralmente as pessoas educam os seus filhos tal como constroem as suas casas, de acordo com um plano que acham bonito, sem considerarem se é adequado às finalidades para as quais são criados.
Mary Wortley Montagu (1689-1762)

Nos finais do século XIX Napoleão começou a sua marcha através da Europa, alcançando finalmente a Prussia (agora a parte da Alemanha ao redor de Berlim) onde o seu exército voluntário de agricultores conseguiu derrotar os soldados profissionais do rei da Prussia. Esta humilhante derrota levou o rei do Prussia a ordenar, em 1819, a criação da escolarização obrigatória pública a nível nacional, pela primeira vez na história.

Platão desistiu da sua experiência depois de uns poucos anos, e os deocratas que governaram Salem Massachusetts abandonaram a sua escola administrada pelo estado quando concluiram que a maioria das professoras eram bruxas. O rei da Prussia foi o primeiro a estabelecer a escolarização obrigatória e a fazer com que ela permanecesse.

A sua teoria, atribuída ao filósofo alemão Fichte, era que ao forçar as crianças a ir à escola desde pequeninos elas tornar-se-iam mais leais e receosas do poder do estado do que do poder dos seus pais. Se não fossem à escola, pessoas com armas as viriam buscar; se elas ou os seus pais tentassem resistir, a polícia estatal podia as emprisionar ou até disparar e matar os pais rebeldes. Os miúdos não eram parvos: eles sabiam que os seus pais não tinham outra escolha senao mandá-los para a escola, e que consequentemente o estado era mais poderoso que as suas próprias famílias. Assim, Fichte e o rei raciocinaram, estas crianças iriam-se tornar bons soldados, respeitando o poder do estado.

Adicionalmente, o rei queria soldados que não questionassem as suas ordens mas que fizessem imediatamente o que lhes era dito. Assim, o sistema escolar Prussiano instituiu um sistema de “proibição de interrupcoes.” As crianças nem sequer podiam fazer uma pergunta sobre o tópico que estavam a aprender a não ser que primeiro perguntassem, “posso fazer uma pergunta?” levantando as suas mãos e esperando autorização. Deste modo tornavam-se “correctamente socializadas” a respeitar e a não questionar as figuras de autoridade.

Por outras palavras, o sistema foi feito para eliminar ou remover as ervas daninhas que hoje chamaríamos de comportamentos e perspectivas alternativas dos cidadãos mais comuns. E, finalmente, todas as crianças que eram os produtos deste sistema escolar teriam as mesmas opiniões sobre “matérias de importância ao estado.” Isto agradou muito o rei, uma vez que ele seria capaz de escolher que matérias eram estas, e que opiniões as crianças deveriam ter.

Contudo, o rei não queria que os seus filhos fossem sujeitos a tal tratamento uma vez que eles iriam ser os futuros governantes do país. Eles iriam se os líderes e precisavam adquirir capacidades de liderança, creatividade e independência em vez da habilidade de obedecer ordens. O rei também se apercebeu que os filhos dos comerciantes e dos oficiais principais do governo precisariam de tais habilidades, e que seriam menos eficazes nos negócios e na administracao do governo se fossem processadas pelo sistema de escola pública que ele tinha criado.

Assim, requisitou a criação de um segundo sistema paralelo de escola pública. Ao primeiro sistema chamou de “a escola do povo” (Volkshochschule), e o segundo seria o lugar onde a verdadeira instrução ocorreria. Reconhecendo isto, foi chamado simplesmente "a verdadeira escola" (Realschule). Noventa e três por cento dos estudantes atenderiam a escola do povo, e os sete por cento que representavam a elite da nação e os futuros líderes governamentais e de negócios atenderiam a verdadeira escola.

A Realschule foi originalmente criada de um modo que seria provavelmente muito amigável. Havia uma ênfase na interação, na participação, em expressar opiniões e idéias, no pensamento crítico e no treinamento da liderança. Assemelhava-se de muitas maneiras a algumas das escolas “experimentais” mais progressivas encontramos nos Estados Unidos e noutros locais.

Hoje em dia, o sistema da escola do povo e da verdadeira escola ainda existe na Alemanha.

Nos primeiros tempos da república americana muitas comunidades locais juntavam-se, empregavam um professor e abriam uma escola. Contudo, estas não eram nem obrigatórias nem do estado. Os pais das crianças pagavam o salário do professor e eram, pela definição actual, escolas privadas.

Com o crescimento e a industrialização da América, e com a partida de muitos trabalhadores para os campos de batalha da guerra civil, tornou-se aparente a necessidade de trabalhadores obedientes para as fábricas. Horace Mann foi à Prussia para observar como as suas escolas funcionavam (tinham sido tao eficazes que o rei da Prussia lutou com os franceses e retomou o seu país), e foi-lhe concedido “doutoramento em filosofia”, uma outra invenção dos Prussianos.

Mann achava que o sistema Prussiano de escola pública seria a solução para os crescentes problemas sociais de América: pensava que ele iria criar uma população mais homogena de trabalhadores obedientes com opiniões e de valores semelhantes. Começou a fazer uma campanha para instrução pública obrigatória, particularmente entre os líderes da indústria, sugerindo que se eles pudessem usar a sua influência política poderiam ajudar a resolver os problemas da sociedades e, ao mesmo tempo, obter trabalhadores melhores para as suas fábricas.

Contudo, o primeiro grupo a aceitar a idéia de Mann não estava interessado em fazer caridade. A legislatura do estado de Massachusetts tinha sido tomada por uma sociedade secreta chamada The Order Of The Star Spangled Banner, e sua senha secreta era, “eu não sei de nada.” Por esta razão, os livros da história referem-se a legislatura de Massachusetts dos finais do século XIX como a “legislatura não sabe nada.” A ordem era uma organização protestante, e estavam cada vez mais alarmados pelo influxo de católicos irlandeses em Boston. Algo tinha de ser feito para introduzir o estado nestas comunidades, ou um dia eles poderiam adquirir bastante poder político ameaçar a estrutura protestante do poder político e econômico. Assim, a cidade de Boston adoptou o primeiro sistema obrigatório de escolarização pública nos Estados Unidos.

Ao trazer o sistema prussiano escolar do povo para os Estados Unidos, Horace Mann fêz um grande serviço ao governo e a indústria. Negligenciou, contudo, o sistema da verdadeira escola. Era suposto que as famílias de poder e de posição teriam bastante dinheiro para mandar os seus filhos para as escolas privadas, e assim não havia necessidade alguma para um sistema estatal de verdadeira escola. Também não queriam correr o risco das crianças espertas “das classes mais baixas” virem a ser educadas como colegas da elite rica.

E assim hoje temos um sistema de escolarizacao pública que tem como seu objetivo principal a socialização de nossas crianças. A vontade de obedecer, de ir com o rebanho, de se submeter à autoridade do sistema e do professor é mais importante do que a inteligência, a curiosidade ou a criatividade. Os que se deixam moldar são recompensados com boas notas. Aqueles que não se submetem a sua vontade às figuras de autoridade, os professores, são frequentemente esmagados.

Esta é a segunda grande luta para as crianças e adultos com o sindrome de Aspergers, e uma área onde - conscientes da história do sistema escolar - podemos começar a mudar as coisas. Muitos pais estão hoje a mandar os seus filhos para escolas privadas; mais do que um milhão de outros nos Estados Unidos escolhem o ensino doméstico. A aprendizagem está disponível no internet. Com estas alternativas proliferando, e com os políticos que controlam as escolas públicas a serem pressionados pelos pais, há uma possibilidade real para a mudança e para a cura dos danos feitos pelas escolas às criancas com o sindroma de Asperger.

Copyright o © 1999, 2000, 2001 por Thom Hartmann, todos os direitos reservados.

2 comments:

jax said...

um, I thought it was going to be bilingual? ;)

Tibetan Star said...

Thanks for the reminder! I've now added a sentence in English explaining what that was about...